Pular para o conteúdo principal

Chá e Conan Doyle

 - Maaaaaauro.
 - Quié? - Respondo ao berro.
 - Vem cá!
 - O que você quer? - Digo irritado.
 - Vem logo, porra!
 - To indo.
 Subo as escadas, irritado. É bom que ele tenha me interrompido por algum motivo importante. Ninguém interrompe meus filmes se não for por nada. Abro a porta do banheiro e vejo ele sentado na privada.
 Uma mão segurando uma xícara. A outra segurando a minha edição de O Signo dos Quatro.
 - Mas que merd... O quê você está fazendo?
 - Lendo. - Ele me olha como se fosse a coisa mais normal do mundo. - E tomando chá! - E então toma um gole da xícara.
 - Sim, isso eu percebo mas... Por que sentado na.. - E então vejo que sua calça está nos seus pés. E a cueca nos joelhos.
 - Só um instante. - Então ele fecha os olhos. Faz uma careta. E só percebo o quê ele fez quando ouço o som de algo caindo na água da privada. A onomatopeia tão conhecida. E o cheiro peculiar.
 - Puta que pariu, Paulo! Que merda é essa? Estou aqui do teu lado!
 - Ah, perdão. Não deu tempo de pedir pra você sair.
 - O quê você quer afinal das contas?? Pode ficar com o livro, ok?
 - Ah, mas como você é gentil. - Ele sorri. Não sei se foi sarcasmo ou gentileza. - Me traz essa garrafa térmica aí do seu lado? Meu chá já esfriou.
 E então percebo que foi sarcasmo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Vamos terminar a garrafa - NPC

- Sabe, mesmo que você realmente seja um idiota, mesmo que eu deveras me machuque. Isso nunca vai ser minha culpa. É um defeito seu se você me machucar, e uma qualidade minha eu pular de cabeça. Nunca pedirei desculpas por correr em direção o pôr do sol.
Com um sorriso sereno, ela fala isso com toda  simplicidade do mundo na mesa do bar, entendia que precisava dar essa certeza para as pessoas, a certeza de que ela compreendia que tudo era efêmero e que estava preparada para um coração partido.
Antes fosse pose tudo isso, lhe facilitaria a vida. Se ela realmente pudesse se culpar, pudesse se fazer de mártir muitas de suas dores seriam justificadas.
Mas não, ela tinha essa consciência de suas escolhas. Sabia diferenciar quando alguém lhe alimentava expectativas e quando ela criava elas mesmas.
Tão atenta de si, mas tão atrapalhada. Oblíqua ao mundo a sua volta, nunca sabia quando estavam gostando dela e por isso nunca sabia quando magoava alguém.
- Não, na realidade você foi bem c…

Porque vamos terminar a garrafa - Vinagre

Nos momentos em que o Sol escondido nas nuvens parece a Lua, e que a Lua durante a noite ofusca a visão como um corpo celeste de brilho próprio é que nos vemos como contempladores. Os aviões no céu brincando com a noção de perspectiva do movimento terrestre, e todos os sentimentos que se tem a necessidade de expressar e que a habilidade nos falta. A habilidade de parar e apreciar.
Não foi até eu perceber que em plenas férias estava correndo que percebi que tinha um problema. Enquanto teoricamente aproveitava o sol e um bom café no terraço, dava cada tragada com força e pressa. Não eram a pressa e angústia de quem queria sorvar o máximo do momento, como as pessoas gulosas pela vida. Era somente a ansiedade de quem tinha algo para fazer. Uma viagem para planejar, pessoas para conhecer, amigos para consolar. Todos os verbos no infinito possíveis, como que se estivessem indicando algo relacionado ao futuro.
 Foi um esforço consciente ter que me permitir aproveitar as sensações daqueles m…

Leblon Holiday

- Está sentindo isso? Nós nesse momento somos eternos.  O sol brilhava janela afora, iluminando uma das garotas mais bonitas que eu já tinha visto. Ela sorria enquanto o cabelo loiro refletia todo o brilho que entrava no meu quartinho azul.  Todo o seu esforço para recriar a cena daquele filme adolescente era verdadeiramente adorável, e não todo em vão. Apenas uma pena que a espontaneidade estava sumindo.  Pulou para fora da cama e correu para o banho, no meio tempo eu me sentei na minha escrivaninha, abri o notebook e comecei a escrever.  Uma página e meia depois ela voltou, se sentou na mesa do lado do computador e retomou a leitura de um livro de poesia, deve ter lido o equivalente a uma estrofe antes de apoiar a perna e me interromper.  - Como és tão produtivo?  - Apenas sendo.  - Hmm, eu tento apenas ser e não consigo. - Se sentou de joelhos na mesa, frustrada, exigindo que eu desviasse meu olhar para ela.  - Tem que se livrar dos seus vícios.  - Todos eles?  - Não, não todos. …