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Mostrando postagens de Dezembro, 2014

Vitrines

E tão rápido quanto os últimos três meses haviam passado, ela se desvencilhou de meus braços e quase num salto saiu da cama.
Tinha percebido mas fingi que não, podia estar com sede, uma vontade enorme de fazer as necessidades ou até com fome; afinal essas coisas não tinham hora.
Tava quase voltando a dormir quando ouvi uma porta fechando com força. E lá nasceu o medo, de que talvez estivesse ido embora, e quais seriam os porquês? Era eu ruim de cama? Era eu muito apaixonado? Ou era ela a covarde?
Dois minutos pensando sozinho e a trama já estava feita, ela já era a vadia que havia partido meu coração.
Me levantei fraco já, havia sido uma noite agitada, e segui para o banheiro onde ouvi o som do chuveiro.
- Pitxul! Pitxul!
Com aquela arminha d'água me acertou o coração.

Esperar não é saber

Podia ser uma madrugada; pelo sono, pelo frio, pela chuva. Mas era nove da manhã, ainda estava com sono, sentindo frio e ouvindo a chuva.   E nesse mesmo frio e naquela mesma chuva olhava a janela do quintal desde a madrugada do dia anterior, procurava a filha sumida fazendo uma varredura minuciosa pela grama, esperando ver a menina ou dando risada com as amigas ou entrando de fininho com a cara vermelha; mas sabia que se a visse a realidade seria diferente.  Veria a sua pequena capengando pela rua, com a maquiagem borrada, ou até mesmo saindo bamba do carro, como tantas outras que tiveram o mesmo destino.  As olheiras contavam toda a história da preocupação que a havia emudecido, as rugas tinham aumentado mais nesse mês do que nos seus quarenta e cinco anos de história.   Uma última lágrima caiu, e ela finalmente fechou os olhos, cansada. Afinal uma morte é uma tragédia, mas mil já é estatística.

Cups made of Porcelana

Nunca fui organizada, mas naquele caderno pequeno velho com cheiro de flor seca havia todas as datas, procurando quando foi que abandonei esse lado que outrora foi importante, esse lado que já me foi como um amante, secreto e luxurioso.  Tentei relembrar as histórias que aqui não foram escritas, aquelas frases-foguetes prestes a serem lançadas...  Mas bateu um trovão de tremer a casa e me distraí num momento onde poderia ter havido poesia.

For the boy of the butterflies

E respirando fundo, foi-se aos poucos colocando as coisas no baú.  Um caderno de matérias copiado.  Uma escova de dentes esquecida.  Os óculos 3D da estréia do cinema em que encontrei o ex-namorado.   Só não houve espaço para qualquer despedida.  Obrigada Jason, pra você agora vai a minha primeira rima.

lhe acha feio o que não é o espelho

Já estava de noite. Não deveria ser o último, mas com certeza o penúltimo ou anti-penúltimo. Um menino nessa noite se senta nesse interbairros vazio e desliga o fone de ouvido para contemplar os seus arredores. O chão do ônibus manchado, os canos amarelos para que os passageiros em pé não caiam... Tudo estava nos conformes. O quê é estranho, meia noite nos ônibus, as coisas não deviam estar nos conformes. Olhou em volta de novo, tentando descobrir o que não estava naquele mundo tão ordinário.  Havia uma garota com maquiagem sentada na janela, sentada olhando para o terminal que logo ficou para trás quando o ônibus saiu, somente os olhos acompanhavam enquanto a cabeça não fazia o mesmo esforço, em alguns segundos a cena sairia de alcance daqueles olhos que brilhavam por uma lágrima que temia cair.  Atrás dela, havia uma senhora. A barriga murcha e flácida, comia quase que escondido um pacotes de salgadinhos baratos, da sacola de compras pendia uma nota fiscal enorme. Provavelmente um…