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Mostrando postagens de Junho, 2013

Depois de Trevisan e Veríssimo

Depois de cada texto escrito, cada poema, cada conto e crônica; as páginas do caderno eram arrancadas. Folhas amassadas e com marcas de uma caligrafia deforme, aos poucos as 120 páginas se transformaram em 50. Vinte delas com escritos, trinta sem. Claro que há um tema em comum; em sonhos de garota sempre se há alguém. O mesmo alguém, por trinta páginas.
 A pergunta de um milhão de dólares: esse alguém tem um caderno sobre ela?
 Talvez sim, talvez não. Mas faremos de conta que a resposta é óbvia.

(não) Vou me entorpecer bebendo vinho, seguindo só o meu caminho.

"Estou de volta"
 A letra curvilínea e redonda me afirmava com um certo quê de caçoamento ao lado do batom que se encontrava no formato de um beijo daquela boca. Daquela mulher.  Um olhar de relance foi mais do que o suficiente para me lembrar daquela figura na forma de uma ampulheta sob a chuva. Os cabelos castanhos ondulados e um grande guarda chuva; o perfume de lavanda com algodão e a voz sempre maliciosa, não importando o que falasse, me convidando para aquelas pernas. As belas e famosas pernas de Jaqueline Vieira.   Para os políticos a filha do ministro, ou, dependendo da metade com quem falasse, a amante. Para a mãe, a filha da outra; para o pai uma arma; e para mim a filha da puta mais bonita que já vi. Enquanto vivíamos todos de jeans e sandálias, ela desfilava de saia e salto. No momento em que lutávamos contra a ditadura, ela se filiava a ARENA. Eu vivia de Tropicália e ela de bossa nova. Mas é claro que eu me apaixonaria por ela.   Amava os filmes, álbuns e o bom…

Até os fotógrafos preferem P&B

Sob todo um espectro semi opaco de neblina é quando a melancolia toma conta e pinta o mundo; O que outrora fora uma ruela, repleta de flores e ipês vira um cemitério sem lápides. As pessoas que sempre cruzamos no bairro ou tornam-se inexistentes nas primeiras horas do dia ou são tomadas de uma depressão externa.

Volta e meia, tanto faz.

Os meus momentos de assassinato que se ocorrem ao ver a decepção de seus olhos e a dor em tua alma. São nos segundos que mato a mim mesma por ti.

Cabaré Para Intelectuais

Um lugar escuro, regado a luz de velas. O suficiente para se ler e escrever. Mulheres que por lá trabalhavam vestiam seus vestidos justos de veludo e os homens pelos donos contratados, um blazer e um jeans. Nada mais.
 Quem lá visitava se deliciava. Pagava caro, suas economias do mês para se maravilhar com charutos contrabandeados, drogas ilícitas (coisas leves, nada que pudesse afetar o processo criativo) e mulheres divinas. Os que não se apaixonavam pelas prostitutas conhecedoras de Dostoiévski e Pullman. Mulheres apaixonadas por cultos. Misteriosas e lábios tingidos, um lugar onde a menor das atrações são os corpos esculturais.
 Canetas, escrivaninhas, máquinas de escrever e computadores. E é claro, as mulheres que pagavam para estarem lá. Menininhas curiosas pelo underworld e senhores acostumadas com rapazes. Tinham certas moças céticas com tudo aquilo, que não desejavam impressionar ninguém, e por isso elas tiravam o fardo das prostitutas de ter que se deitar com estranhos. Todo…

Acreditam na flor vencendo o canhão.

Homens e mulheres caídos. Garotos e garotas gritando. Uns fugindo, outros apanhando e ainda há aqueles que lutam. Estudantes magros, gordos, desajeitados gritando e chorando. Há uns que seguram a bandeira vermelha, outros que se agarram aos cartazes brancos da paz. O quê você faz na guerra?
 Aproveita um último trago e divide tua garrafa com o amigo?
 Dá um último beijo desesperado em seu amado e corre para a linha de frente? Quem sabe até, um berro desesperado e uma última corrida para sobreviver. E então, ideais e ateísmo são postos à prova; Ave Maria, Deus me acude, veio a tropa. Ninguém espera ter que sacar as armas, esses adolescentes vão voltar para casa.
 Mas não voltam. Ficam e lutam. E apesar de balas de borracha e gás não letal, uma garota cai morta. Alguém grita e um berro desesperado vem. Afinal, eis que vimos a cólera.

Porque vamos terminar a garrafa - larali larala

- Sabe, ás vezes acho que você gosta de sofrer.
 - Por que diz isso?
 - Me apresentar as mesmas bandas que ouvia com ela, a banda que tinha a música de vocês, tudo isso pra que, quando terminarmos, a música fique duas vezes mais dolorida.
 - Pare, te mostro outras coisas que ela não gostou.
 - Então? No fim terá que se render ao sertanejo por não ter mais nada bom pra ouvir.

Os salvo-condutos da sociedade.

Algum dia viro poeta, e me justificarei; terei um motivo por todos os "eu te amo" que disse, que passaram despercebidos. Terei alguma razão em ser idealista; passarei de tola à romântica, tudo o falta é aprender à fazer o verso e fingir que fico feliz enquanto não leem, apesar de ser o inverso.

Cause I see Right Through you.

- Sabe, acredito que você descobre tudo sobre alguém somente pelas mãos.
 - Como assim? Pelas palmas ou tudo?
 - Tudo, deixe eu te mostrar. - Ela riu pra mim. - Só tem que ser meticuloso.
 E pegou minhas mãos, analisando-as com os seus dedos, devagar e cuidadosamente. Passava as pontas dos seus dedos, indicadores, polegares sobre toda a superfície. As pontas dos meus dedos, o lombo de minha mão, a palma e as costas ela cheirou. Tinha um "quê" romântico e sedutor naquilo, um sorriso deve ter brotado em meus lábios, pois ela me encarou e retribuiu aparentemente.
 - Você é um músico. - Ela sorriu de novo.
 - Como você sabe?
 - Seus dedos. Indicador, do meio e mindinho, têm calos, com uma linha leve entre eles. Sua mão direita, unhas fortes. Toca violão há quanto tempo?
 - Seis anos já.
 - Haha, impressionado?
 - Sim. Onde aprendeu a ser assim?
 - Conan Doyle, sempre amei o metodismo do Dr. Holmes.
 - Posso tentar?
 - Be my guest, sweetie. - E o inglês fluiu dela com um carisma…

Hospedada na Utopia.

Todos os dias antes de ir para o colégio, eu ia a pé até o ponto do ônibus. Andava pela superfície uniforme da ciclovia e cumprimentava as mesmas pessoas; por um ano inteiro foi assim. Tinha uma velhinha, baixinha, fraquinha, pernas finas e barriga redonda e murcha; porém com um olhar querido e apertado de oriental. Sempre falava com ela e ela sempre me convidada pra entrar e tomar um cafezinho com bolo. Nunca tinha tempo, mas sempre prometia pra mim mesma que iria.
 No ônibus, lia um livro, o livro que eu carregava na mão, enquanto lia, olhava para as pessoas. Prestando atenção em seus olhares e cabelos. Os cabelos macios e sedosos de certas garotas, crespos e bagunçados de certas mulheres e no cobrador, que dia sim, dia não era o mesmo. Isso é engraçado sobre ônibus; por mais que sempre pegasse o mesmo ônibus todos os dias, no mesmo horário, nunca via a mesma pessoa duas vezes, não consecutivas pelo menos. Mas toda quinta-feira via o mesmo senhorzinho com a mesma sacola cheia de pã…

26/06/1968

- Querida, vou-me pra guerra.
 O suficiente para o coração palpitar e as palmas da mão suarem frias. Ver o marido e ele podendo não mais voltar, sem ter ninguém para dele cuidar. Acho que só há uma solução.
 - Me espere comprar as cotoveleiras, que vou contigo.

O Último Romance

Naqueles momentos solitários caminhando na praia, com a areia entre os pés e incomodando até onde for possível. Pele grudada de sal e os cabelos da mulata emaranhados, com os olhos dourados refletindo o pôr do sol. Se fosse Van Gogh se inspiraria e deliciaria com as cores do paraíso tropical, enquanto Chico Buarque faria mais uma dedicatória apaixonada à tua pátria. Afinal, isso é uma aquarela, onde aos poucos todas as cores do crepúsculo se misturam com a carioca típica, mulher bonita, pele dourada e sorriso branco. É Dora, filha de Jorge Amado nas obras. Ana Terra, lutando pra sobreviver onde está, quem sabe até Capitu? Mas convenhamos, nunca será Jane Austen ou Julieta, é mais do que isso, é injusto comparar mulheres de Atenas com as brasileiras.

Porque vamos terminar a garrafa - Pillow Talk.

- E se terminarmos? Você sabe que tem chance, uns oitenta e oito por cento, eu diria. Digo, eu provavelmente não sou o grande amor da sua vida.
 - Então porque estamos juntos? Se tem tanta chance de terminarmos.
 - Porque, nesse momento, agora, você é o amor da minha vida. Prefiro viver o presente, não gosto de "e se".

12/06

As embalagens de doces importados espalhadas pelo chão, acompanhado pelos algodões com esmalte e acetona. Apenas deitada na cama e alguma coisa lenta toca no rádio. Os suspiros baixos enquanto as memórias continuam frescas; apenas os "eu te amo" perdidos e os abraços escondidos, vamos lá, pelo menos em datas comerciais podemos nos permitir ao romance burguês.

Porque vamos terminar a garrafa - Pequenos contratempos.

- Sempre quis que eu sentisse ciúmes, e agora que sinto, como se sente?
 - Arrependido por você ser tão paranoica.

A nossa canção francesa.

O suficiente para eu me enrolar nas cobertas ao teu lado, enquanto Paris aproveita o verão. Nossos pés confusos entrelaçados sem nem conseguirmos identificar as nossas posses. As marcas frescas na pele e pálpebras caindo. Midnight In Paris passando na televisão à nossa frente. Mas ninguém realmente assiste, somente lutamos para não dormir, porque esses suspiros abobados não acontecem sempre.

Todos queremos ser John Malkovich

Impressionante ver a beleza da marca do batom vermelho no cigarro; surpreendente em ver que, antes engasgava com a fumaça e agora são cinco por dia. "Não estou viciada, posso parar quando quiser" diz dando de ombros e comendo o chocolate que roubou da loja de departamento do lado. Olha para baixo e vê as botas já gastas, olha para o lado e encara a jaqueta de couro nova. Afinal, estética tem um preço.

I'm your late night evening prostitute

E na casa do namorado, ela o beija. Uma mão escapula por baixo do sutiã e os dedos arranham as costas, e os dentes enfeitam o pescoço com marcas. Em questão de minutos estavam os dois na cama, e as roupas no chão. A camiseta laceada e uma calcinha quase rasgada.
 Duas horas depois, estão ambos esgotados. Caídos, deitados juntos. Um sorriso nos lábios dele e um suspiro na voz dela; porém já é tarde.
 Correr até o ônibus, com o casaco aberto, cabelos emaranhados e cheirando à sexo. Mas não há tempo de fazer isso, ela espera.
 Sentada num café, sorrindo, achando graça de tudo, está a amante. A Outra.
 - Ele te prendeu de novo?
 - Haha, claro que sim. - Somente ambas conheciam o duplo sentido da frase.
 E então, Mariana nota a xícara de chá que estava na mesa.
 - Hortelã com gengibre e mel? - Ela pergunta com a face já rubra.
 - Deixei esperando por você.
 Um crepúsculo assim se esvaira; chá se transforma em café, café se transforma em conhaque que vira poesia declamada e canções dedicad…

Save my Immoral Soul

Depois de um tempo morando juntos, se começa a prestar atenção nos metodismos. A maneira que ela joga o sal por cima do ombro quando pega em excesso ou até a mania de empurrar as cutículas com as unhas. E ficar com medo que ela descubra os seus. A maneira que você enrola os cabelos nos dedos até deixá-los oleosos, como rói as unhas constantemente ou a voz de criança que fica quando nervosa.
 É fácil se esquecer de que, da mesma maneira que você acha isso lindo, ela também.

Quand c'est l'hiver ici, c'est l'été à Paris

As almofadas com talco e pó de arroz. Os chapéis de aba, escondendo os olhos da moça. E os lábios tingidos, como sempre. Afinal, isto é Paris.
 Rapazes procuram pelas damas por entre os bistrôs, bebericando cafés e lendo Edgar Alan Poe. Um dos poucos lugares onde a boemia, é realmente clássica. Homens procuram por moças, e as moças com cigarros nos lábios, procuram por homens. E de noite? Somente deus Sabe pra onde vão. Sozinhos para casa, juntos para o hotel? Ou quem sabe passar a noite bebendo vinho e conversando sobre Godard e Tolstói? Oui Mon Ami,C'est Paris.

Em momentos difíceis é preciso pensar em alguma coisa bonita.

- Malditos ideais! - É o que mais um bêbado diz enquanto enfia a cachaça goela a baixo. Claro que, uma palavra diferente de "puta" ou "desgraçada" por aqui, é o suficiente para atrair a atenção, mas é claro, nunca vi um homem pedir uma garrafa inteira e precisar de uma platéia pra contar tua história de como se apaixonou e teve o coração partido.
 - Sabem, antes de vir pra cá encontrei uma carta. Devia estar no meu casaco desde que ela foi embora, mas, bem, viu frio por aqui? Também não. De qualquer jeito, sabem, me apaixonei por uma garota. Uma garota mesmo. Apaixonada, jovem, bonita, fogosa. Aquela garota sobre que as histórias são feitas sabe? E ela era fiel. E me amava. Até casou comigo. - Ele ri e toma mais um copo. - Não igreja e toda aquela porcaria, não tinha dinheiro, só na prefeitura... Como se diz?
 - Civil?
 - Exatamente rapaz! Enfim, por oito meses fomos felizes, pobres mas felizes. Sabe, ela não ligava pra dinheiro. Ela até que tinha, os pais dela e …

Marius e Cosette.

E eles se olham, no meio do corredor. A garota bonito e moço belo. Um olhar de quinze segundos é o suficiente sobre todo o ardor da manifestação no colégio. O suficiente para o coração dela palpitar e o dele rodopiar, e é claro, que no dia seguinte, já se amam. Como não amar um desconhecido que deu-me borboletas no estômago? Como não desejar loucamente a garota que não sei o nome?  Não importa, o relevante aqui é, teremos casório.

Meus caros amigos, Divagações como prometido.

Uma geração de mentira. Escritores falsos, falsos poetas. Intérpretes que pensam demais de si mesmos, e pouco sobre as obras lidas. Resumos na internet, o estético sendo mais importante do que o interior, é claro que tudo isso é sustentado por um discurso hipócrita de igualdade. Somos todos esquerdistas, é claro. Qual a utilidade de ler Marx se sabemos que comunismo é sobre igualdade? Afinal, todas as obras estão resumidas nas frases.   Adolescentes pregando a liberdade e a beleza enquanto leem Bukowski. Tyler Durden, é o profeta absoluto; mas tem algo, se a geração passada foi da revolução espiritual, qual a nossa? Teremos força para uma revolução comunista? Temos motivos para mudar? Já não somos rebeldes o suficiente? Talvez sim, talvez não.  Somos todos filósofos, segunda revolução boêmia. Mas, ninguém é revolucionário. Ninguém vai tomar a frente, ninguém está disposto a morrer pelos ideais. Afinal, não tem beleza em sangue fora das telas. Acho que é o cheiro que atrapalha.