Postagens

Mostrando postagens de Dezembro, 2012

Algo de estranho na normalidade

- Vinte e cinco reais.  - Obrigada.   Pagou pelas doses e voltou para a pista de dança. Encheu um copo de 400 ml com as vodcas. Mas pareciam álcool da ilha. Bem, bebida barata, música razoável, e algumas garotas que nunca mais iria ver. Satisfez Mancha. Também conhecido como Bernardo. Mas, ele se chamava de mancha.  Nunca tinha parado para pensar em quão simplório e ordinário ele era naquele bar. Afinal, em que mundo é normal um homem ter cabelo comprido e lápis de olho preto?   Virou a vodca, foi para a frente do palco e começou a roda punk. Ou Mosh. Um aglomerado de garotos que parecem homens que agem como animais ouvindo música.  Saiu de lá, somente quando fechou.   Comeu uma coxinha, lavou a cara, ligou para a mãe ir buscá-lo.

Reunião de Familia

- Sabe, a Jaqueline está linda. Ela emagreceu?
 - Aham, perdeu uns sete quilos. - Respondeu a irmã mais nova.  - Pois é... A Elisa podia seguir o exemplo.   - Ela está ótima. - Falou a irmã do meio para a mais velha.   - Nem tanto, não está lendo tanto e inventou de ser revolucionária.  - É uma fase, que nem a Patrícia querer ser modelo. Ela conseguiria né? Ela é bonita...   - O problema é a altura dela. A Jaque é alta, por exemplo. Mas eu não gostaria que ela fosse modelo.   - Por quê?   - Muito estresse, muita pressão. E ela não tem tempo. Tem esportes, cursos, etc.  E a irmã mais velha só ouvia enquanto suas irmãs falavam sobre o quão lindas suas filhas eram.   - Sabe - Se pronunciou a primogênita. - A Elisa ta namorando.  - Sim, sim. Vimos no facebook... Não é muito bonitinho ele né? - E então as três irmãs se olharam para a sala onde os três casais conversando.   A irmã mais velha viu a filha rindo e conversando sobre filmes com o namorado. Enquanto a filha de sua irmã caçula co…

Algo além de palavras bonitas: poesias.

Ficou algumas horas naquele quarto de hotel. O tempo suficiente para retocar a maquiagem, e terminar a garrafa de champanhe que havia dividido com o garoto. Era aquilo que ele era, um garoto.   Por mais belo que fosse, ou adulto. Ainda era um garoto. Se arrependera de ter o ensinado a amar. Ela simplesmente arruinou a vida de uma criança.  Prendeu os cabelos, e saiu a andar por Manhattan. Aproveitou que ainda era cedo, e comprou um café. No café deles.   Porém, ele estava lá.   - Não conseguiu ficar longe de mim? - Lúcio perguntou, rindo.  - Para alguém que disse estar apaixonado, você parece muito bem.  - Eu sabia que você ia voltar.  - Como sabia disso?  - Seu velho poeta não consegue mais erguer o pau.

Algo além de palavras bonitas : ereções

- Acabou então?  - Sem nem mesmo ter começado.   - Me poupe, Júlia. Deixe as frases feitas para o seu marido. - E então, começou a se vestir, o rapaz.  - Não me culpe. Nem me olhe desse jeito. Em nenhum momento eu falei que iria abandonar ele.   - Porra, não esperava isso. - Talvez, um pouco. Pensou ele enquanto arrumava a gravata. - Só me explique uma coisa: por que ainda está com ele?  - Amo ele.   - Como pode amar um poeta velho?  - Ele não é velho. Tem cinquenta anos. Menos que isso.   - Eu tenho trinta.   - E eu quase quarenta. Você que devia ir embora.   - Sabe, você me fez acreditar que você me amava. Isso é muita sacanagem.   - Se eu não posso fazer frases feitas, você também não pode.   - Mas é injusto.   - Como?   - Você é casada com um poeta.    - Adeus Lúcio.   - Vai se despedir dos outros quando?  - Já o fiz. Deixei você por último.   - Por quê?  - O mais importante talvez.  E antes de ir embora, ele olhou para trás, e viu. A mulher vestida em renda e envolta em linho, …

Treze horas de abstinência

A questão não era ver ela. Eu queria, afinal, estava namorando a garota. O problema era viajar.
 Sempre gostei de aeroportos, era a única coisa que eu gostava quando ela tinha que ir para casa. Deixá-la no aeroporto. E eu  passeava, comia pão-de-queijo e via as coisas caras e importadas.
 Mas quando eu tinha que viajar, a história era diferente. Principalmente agora que ela estava na Austrália. Entendo querer fazer engenharia ambiental, e ter conseguido emprego em um ótima empresa, mas tinha que ser do outro lado do mundo, porra? Treze horas na merda de um avião. Pra pedir ela em casamento.
 Claro que oitava hora de voo mudei de ideia.
 Sentia falta da porra do cigarro.
 Tentei dormi, não conseguia. Virava de lado, e uma senhora, me encarava como se eu fosse satã personificado. É claro que o meu visual ao estilo Keanu Reeves em Constantine não ajudou, mas que se dane. Eu parecia com o cara. Meio caricato, mas um ator foda. Digo, ele era o Neo. Certo que a Clara lembrava-se dele por O…

Assobios Para o Coro

Muito fácil. Fácil até demais, garota. Sorrir, te abraçar, te chamar de "minha pequena" e então te puxar para dançar uma valsa desengonçada. Pois você não sabe dançar.
 Mas também, por que aprender se você pode ler em rúnico?
 Que droga, menina. Sinto saudades.
 Da maneira desengonçada em como você toca violão. O jeito que ri de mim, e é claro. A maneira que você esconde seu sorriso. Desgraçada. Só porque adoro seu sorriso.
 Oh, you silly girl.
 Mas enfim, sabemos não é? Somos adoráveis para duas pessoas feias.
 Porque afinal de tudo. É tanto o seu sorriso tímido, quanto a maneira.
 Confesso, sinto sua falta. Não finja que não sabe.
 Mas... Um favor? Por favor? (Droga, odeio rimas)
 Não me fale mais que não está sozinha.
- Qual a história dela?   - Quem disse que ela tem que ter uma história?  - Ela tem tatuagens e espinhas. Muito nova para ter a primeira coisa que citei.  - Errou. A garota tem vinte anos.  - Ela te disse isso?  - Pois é.  - E você acreditou?  - Querido, olha só o lugar onde você está. Não é como se eu pedisse os documentos dela.  - Deveria cuidar mais das suas garotas.  - Por quê?  - Nenhuma está aqui por primeira opção. Realmente, você não tem compaixão?  - Ninguém teve isso comigo. Não terei com ninguém.  - Eu tive.  - Claro, me fazer administrar um puteiro é muito carinho.

Além de café e cigarros.

- Vocês são hipócritas, sabia?  - E a humanidade não é?   - Vocês estão num nível acima. Fazem os políticos parecerem honestos.  - Pegou pesado agora. Explique-se. Quando fala nós, se refere a?   - Vocês, escritores. De todos os gêneros. Desde Tolkien criando um mundo para fugir de si mesmo, até Marx criticando a burgesia pelo fato de ser pobre.   - Sinto muito querida, mas... Não sou tão épico quanto Tolkien, ou inteligente quando Marx.   - Sim, você é pior.  - Como? Sou só um colunista.  - É underground. Julga que cigarros e café podem fazer um texto bom. Independente da situação. A sua receita é, cigarros, café, sexo, drogas. Pensa que é Bukowski, quando na realidade não passa de um Paulo Coelho que mora em uma cobertura. Pois ninguém se sustenta de textos baratos.  - Oh, Cherrie, entenda. São pelos meus textos serem baratos, que as pessoas compram. Você inclusive.  - Compro porque sou sua amiga.  - Não, você virou amiga depois de me conhecer. E desde antes de me conhecer, me lia…

Ratos de bibliotecas underground

Uma coisa engraçada sobre escrever: é ridiculamente mais dificil quando se está apaixonado. Piora muito quando se está apaixonado e com saudades. Sim, a inspiração aumenta, mas a qualidade oscila. Ora são textos magníficos, ora são textos péssimos. Em geral são péssimos.
 O motivo é simplesmente o fato de que: escritores são pessoas armaguradas e infelizes. Quando se está apaixonado, por mais triste e agoniante que você esteja, você está sempre sorrindo. Pensando nele. Ou nela. E quando se está com saudades, é pior ainda.
 Saudades são os clichês dos contos, das declarações. A distância, a vontade do outro. E por aí vai.
 Por isso, escritores apaixonados, sofrem mais. Além de serem poetas, e terem uma tendência a dramatizar tudo, eles têm essa pequena batalha interna. Pois, quem somos nós se não escrevemos?
 A glamourização da dor personificada, talvez.

Noite de Natal

As fofocas, a malícia. Piadas de mau gosto; trocadilhos e sorrisos falsos.
 Os abraços, as risadas. Confiança e sinceridade; palavras de apoio.
 As primas que fofocam umas das outras, comentários maldosos sobre a namorada 20 anos mais nova que o tio.
 As piadas duvidando sexualidade dos mais próximos, elogios sobre a roupa e a amizade sincera.
 Durante toda essa confusão entre um pernil de natal, cada mãe elogiando sua filha. Havia uma garota. Sim, a narradora que está aqui presente. Que nada fazia além de pensar. Pensar em um sentimento. Pensar em uma pessoa. Pensar nele. Sim, admito a saudades.
 Odeio saudades, por sinal.
 Então, pois é.
 Descrevi toda uma cena, só para admitir que estava com saudades.
Muitas saudades.
 Para caramba.





Ouviu Luiz?

Cinco Batidas

Em Gm C Dm Am
 Acordes lentos e menores definem a batida. Uma paciência minha, desconhecida até então, me ajuda a criar o ritmo. A harmonia. A composição fica pronta. Porém a parte mais importante nem tem um começo. Somente um verso que sei que vou colocar em algum lugar na música (nem sei onde, por sinal) que ocupa a minha mente.
Eu te amo.  E que o inferno me queime se isso for ruim Frustrada, jogo o violão no tapete (mesmo com raiva, ainda cuido do seu presente) e roubo um cigarro de minha mãe e corro. Porque ela me bateria se soubesse que eu fumo.  Vou até o parque e te vejo, sorrio, afinal, não tinha combinado de te ver. Você me olha e sorri. Ando até a sua direção. E em cinco passos te alcanço e abraço. Penso que a sua música pode esperar, afinal, isso é mais importante.

Porque textos bons são feitos de armagura

- O quê houve? Por quê parou de publicar?
- Nem sei, uma mistura de preguiça, felicidade e satisfação pessoal.
- Preguiça do quê?
- Fingir que sou infeliz para agradar estranhos.

Aquele fatídico 19 de dezembro do ano passado.

- Então? Vai me falar o porquê de ter jogado um sofá nela?
- Ah, ela me traiu.
- Ela já não estava fazendo isso há algum tempo?
- Sim, mas bem, era melhor quando ela cuspia e chamava de chuva, entende? Digo, percebia que ela não queria transar mais comigo nem nada assim, mas do mesmo jeito.
- Não sabia que você não era mais virgem. Obrigada por me avisar isso, José. - Ela tomou um shot da tequila.
- Muita informação? Desculpa, já passei do ponto se sobriedade faz duas doses e uma cerveja, amor.
- Ok, ela era boa de cama?
- Estamos saindo do assunto... - Eu disse, abrindo mais uma lata. - Não íamos falar sobre a minha carência emocional? Para te ajudar no curso de psicologia e etc?
- Não quero mais, estou com ciúmes.
- Por quê? Terminei com ela por um motivo.
- Sim, porque ela te traiu. Não porque você parou de amar ela.

Banana Boats voadores

- O quê mudou?  - Uma garota.  - O quê ela fez?  - Me fez repensar toda a minha vida.   - Qual o nome dela?  - Não sei, vou descobrir agora. Digo, se ela aparecer né.   - Como assim uma garota te fez repensar toda a sua vida? Era boa de cama?   - Não sei. Nem se quer beijei ela. Na real, eu nem falei com ela.  - Ok, uma garota que você não conhece, não teve nenhum contato, e provavelmente nem sabe da sua existência mudou a sua vida. A história vai ser boa.
 - Não ria, que a história é séria...
 - Sim, tão séria quanto um burro voando de Banana-Boat.
 - Se não quer saber, vá embora, animal.
 E ele foi.
 Marcelo não deu muita bola para o que o amigo dizia. Não esperava muito de um garoto de quinze anos virgem. Já sabia qual seria o clichê; ele a viu. Ela estava beijando o namorado. Teve seu maior amor e maior coração partido em apenas quinze segundos, não a esqueceu desde então.
 Estava quase chegando em casa, perdido pensando em sua vida de merda. Porque tudo era uma merda. Uma lata…

Utilidades além de ser uma horta de ervas-daninhas

- Sua sacada é maior que o seu quarto.  - Eu sei.  - Você usa ela?  - Não.   - Por que escolheu esse quarto então? O do seu irmão é maior.  - Talvez eu quisesse que ele ficasse com o quarto maior...  - Por que escolheu esse quarto?  - Quis me pagar de romântica e fofa.
- Nunca usei uma arma.   - Eu sei.   - Por que está me dando uma então?  - É melhor você não usá-la do que eu usá-la.  - Por quê? Parou de ser justiceiro?   - Não. Só parei de ser assassino.   - Vai fazer justiça como agora?  - Não matando pessoas parece um bom começo.

Dor de corno de um amor que já passou.

Todos os dias. Era essa a frequência com qual eu a via. Ficava meia hora até depois do trabalho, e então em dirigia ao ponto de ônibus. O mesmo que ela pegava. Normalmente ela não me via. Estava sempre com ele, ou as amigas. Sempre sorrindo. Ela não sorria quando estava comigo. Me lembro disso. Dava risada, pulava, cantava. Mas nunca sorria.
 O cabelo dela estava diferente. Antes era roxo, agora estava virando castanho. Deve ser a cor natural dele. Ela ficaria bonita com o cabelo castanho.
 Me viro para o canto que sempre fico até ela ir embora. Porém, algo acontece.
 Ela me vê.
 Então, o sorriso some. Ela vem na minha direção. Olho para baixo e fico parado.
 - Pensei que você tivesse morrido... - Ela disse.
 - Não, fiquei com medo.
 - Por que não me avisou?
 - Qual é a graça de tentar suicídio e não conseguir?
 - Parar de fazer drama, talvez.
 - Engraçado como você me superou rápido.
 - Te superei antes de terminar contigo. Foi por isso que terminei.
 - Pensei que era porque me tra…

Definição de termos

- Sabe... Eu sinto a falta dele. Dói demais. Me destruiu ele ter ido embora.   - Você sabe o que dizem não é? Que se acabou, é porque não foi amor...  - Besteira, "merda de boi", como diriam os americanos. Foi amor.  - Porra, ele só te machucou. Mentiu pra você, te fez se sentir como lixo. E você ainda diz que foi amor? Querida, amor é recíproco. Igual dos dois jeitos. Ele não te amava. Você amava ele. O que faz com que todo o seu sentimento seja somente uma paixão. Desculpe, mas foi somente uma paixão adolescente.  - NÃO SE ATREVA A DIZER ISSO! Apesar de tudo. Das traições, das mentiras, das agressões, ele voltava. Ok? Todas as noites ele estava em casa. Ele sempre dormia comigo apesar de tudo. Ele me disse uma vez "As ereções com viagra são para as outras. Com você eu sou 100% puro".   - Então vocês dois eram doentes. Viveram num relacionamento de sexo e loucura e você achou isso normal. Agora ele foi embora, sabe por quê? Porque alguém tinha que ir. Vocês eram…

Sob a poeira de estantes amontoadas

Um velho chamado Alberto tinha um sebo. Ele era analfabeto. Era um dos sebos mais frequentados da cidade. Principalmente por estudantes. Tinha todos os exemplares de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado. Alberto, o velho era a pessoa mais adorada da hierarquia cultural da cidade que não podia pagar mais de quinze reais por livro. Com exceção de umas poucas pessoas. E uma dessas pessoas que eram exceções, quem mais chamava a atenção do dono da loja. Uma mulher em seus quarenta anos, todos os dias, pegava um livro, sentava e o lia. E após terminar o livro, o comprava. E sempre que comprava um livro, levava um LP. Um dia levou o The Wall e O Continente volume 1. Outro dia levou Like A Rolling Stone e Morro dos Ventos Uivantes. E teve uma vez que levou LongPlay e Senhor dos Anéis. Algumas vezes ela demorava mais de uma semana para ler um livro. Mas não comprava nada até terminá-lo.  Era muito simpática. Sempre conversavam sobre livros e música. E ela sempre lia livros para o …

Dois médicos conversando após o expediente

- Sabe, um paciente meu pediu minha companhia durante a noite.   - Qual era o estado dele?  - Terminal.   - Ele sobreviveu a noite?  - Não.   - Engraçado isso não é? As pessoas sabem quando a morte está se aproximando. Me lembro de como ele pediu. "Doutor, fique comigo esta noite. Sinto que vou sair desse estado de agonia logo". Três horas depois, ele morreu.   - Ele demorou para morrer?  - Bastante. Eu fui até a cafeteria, comprei um café para mim e uma cerveja pra ele. Foda-se ética, o cara estava morrendo, sabia que estava morrendo. Comprei uma cerveja e chocolate para ele. Liguei a tv e passamos a noite assistindo o UFC e conversando. Nunca tinha parado pra conversar com ele, era um cara legal.   - Ele teve o quê?  - Parada Cardíaca. Nem me dei ao luxo de ajudar ele, ele não queria. Vi isso nos olhos dele. E ele disse.   - Qual a sensação?  - A pior possível. É péssimo. Um homem que você quase se matou para fazê-lo, ver ele... Tremendo, suando frio. Olhos vazios, gemen…