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Vamos terminar a garrafa - NPC

- Sabe, mesmo que você realmente seja um idiota, mesmo que eu deveras me machuque. Isso nunca vai ser minha culpa. É um defeito seu se você me machucar, e uma qualidade minha eu pular de cabeça. Nunca pedirei desculpas por correr em direção o pôr do sol.
Com um sorriso sereno, ela fala isso com toda  simplicidade do mundo na mesa do bar, entendia que precisava dar essa certeza para as pessoas, a certeza de que ela compreendia que tudo era efêmero e que estava preparada para um coração partido.
Antes fosse pose tudo isso, lhe facilitaria a vida. Se ela realmente pudesse se culpar, pudesse se fazer de mártir muitas de suas dores seriam justificadas.
Mas não, ela tinha essa consciência de suas escolhas. Sabia diferenciar quando alguém lhe alimentava expectativas e quando ela criava elas mesmas.
Tão atenta de si, mas tão atrapalhada. Oblíqua ao mundo a sua volta, nunca sabia quando estavam gostando dela e por isso nunca sabia quando magoava alguém.
- Não, na realidade você foi bem c…

Estrada Revolucionária

Já estava planejado, os convidados chegariam às 17:30, logo antes do pôr do sol na orla, onde as cortinas translúcidas fariam sua função de impedir a cegueira mas não a beleza. Na sacada haveria um sofá de vime e um balde com gelo e vinho branco e a sala de jantar estaria decorada com crisântemos vermelhos e brancos enquanto haveria um samba tocando, uma homenagem a bossa nova da zona sul; contudo ainda faltavam dez horas para o acontecimento. José já tinha levantado duas horas antes, então Marieta aproveitou os seus momentos sozinha antes da bagunça cotidiana. O quarto sempre se conservava branco e azul, mantendo algum efeito terapêutico calmante.   - Parece um valium.   Foi a reação do marido quando a decoração ficou pronta, alguns anos antes ela teria dado risada, mas décadas envelhecem o humor.  - Valium e viagra.  Ele não tinha ficado magoado com o comentário, essas leves humilhações játinham virado um hábito dela.  Lavou o rosto e molhou alguns fios de cabelo da moldura facial…

Leblon Holiday

- Está sentindo isso? Nós nesse momento somos eternos.  O sol brilhava janela afora, iluminando uma das garotas mais bonitas que eu já tinha visto. Ela sorria enquanto o cabelo loiro refletia todo o brilho que entrava no meu quartinho azul.  Todo o seu esforço para recriar a cena daquele filme adolescente era verdadeiramente adorável, e não todo em vão. Apenas uma pena que a espontaneidade estava sumindo.  Pulou para fora da cama e correu para o banho, no meio tempo eu me sentei na minha escrivaninha, abri o notebook e comecei a escrever.  Uma página e meia depois ela voltou, se sentou na mesa do lado do computador e retomou a leitura de um livro de poesia, deve ter lido o equivalente a uma estrofe antes de apoiar a perna e me interromper.  - Como és tão produtivo?  - Apenas sendo.  - Hmm, eu tento apenas ser e não consigo. - Se sentou de joelhos na mesa, frustrada, exigindo que eu desviasse meu olhar para ela.  - Tem que se livrar dos seus vícios.  - Todos eles?  - Não, não todos. …

Barbárie (a trilha sonora)

Estava com o cabelo oleoso de pós chuva, o moletom velho e a camiseta favorita de gola cortada. Já não era o ser humano mais atraente do mundo contudo o seu estilo que sempre a salvou; o delineado bem feito nos olhos e a boca pintada ora de vermelho, ora de laranja eram o que a destacavam, de outro modo ela somente se misturava à paisagem.  Em uma mesa estava junto de outros quatro conhecidos que calorosamente discutiam cinema e literatura, e por mais que adorasse esses tópicos estava quieta naquela noite, apenas ouvindo enquanto um deles endeusava Clube da Luta enquanto contava a história para aqueles que não conheciam.  - His Name is Robert Paulson! - O rapaz exclamava animado, esperando que todos reconhecessem a referência.  Bárbara apenas soltou algumas palavras e um comentário de vez em quando sobre a situação, fez uma piada sobre catarse e um comentário sobre The Pixies, ambos geraram risadas, fazendo com que ela sucedesse nessa interação social.   Assistiu o começo da aula de…

Bárbara

Não há Pôr-do-sol em Curitiba, ela escreveu num fôlego rápido enquanto esperava o ônibus na ainda vazia e nebulosa Getúlio Vargas vespertina; por mais que o sol ainda não houvesse nascido, o pensamento servia tanto para a aurora quanto o crepúsculo.   É perigoso isso, a baixa incidência de sol. Não há divisão dos turnos, o dia só é menos escuro do que a noite, o que é ideal para vampiros, mas não para garotas. It’s indeed a dangerous time for dreamers.  Teve que reescrever no celular, a caligrafia no ônibus era hedionda; guardou a caneta em um bolso específico da mochila e pegou o aparato eletrônico com pressa, afinal a inspiração era como um fôlego efêmero, poderia ir embora tão rápido quando chegou; o que era terrível para pessoas que se distraiam muito.  A tão chamada cidade dos poetas. Tivemos Leminksi, Trevisan e Perneta, mas nenhum Bandeira, Drummond, Vinicius de Moraes ou Gregório de Mattos, sem o sol para inspirá-los se sucederam bem para temas mundanos e espirituais, contudo…

your one companion

Sentada no sofá ela permitiu um suspiro escapar, havia anos já que não se sentia rejeitada desse modo. Não foi um sentimento novo porém quase pareceu como se fosse, afinal ele a pegou de surpresa.  Deitou no sofá como fazia quando era mais nova, bem mais nova, quando ouvia The Pretenders no rádio e chorava por um antigo namorado. Não havia mais rock inglês e nem lágrimas na cena, mas quão diferente era realmente a cena? Ainda havia um ser humano do sexo oposto no seu pensamento e também se sentia mal por causa dele.  Se levantou e saiu a andar pelo apartamento espaçoso, deu trinta passos pela sala, acompanhando a parede feita de vidro que era a janela e a porta para a varanda; portas, janelas e divisórias todas feitas de vidro, tudo isso para dar uma maior sensação de amplitude para o ambiente. Mais vinte passos pelo corredor que a porta de madeira branca separa polidamente dos convidados e entrou no quarto.  O quarto cor de champanhe com detalhes em roxo e marrom, sofisticado, como…

gazing across

O frio era suficiente para o próprio ar lhe arder os pulmões, em uma sensação mista de alívio, limpeza e profundidade dentro de si mesma, o frio da noite lhe percorrendo os capilares; uma metáfora bonita, como pensar que a noite, como algo palpável, estava dentro de si. Ficou feliz pela maquiagem estar escondendo o nariz vermelho ao se olhar no reflexo, sorriu com o resultado, se sentiu bonita no reflexo da vitrine, um sentimento raro após os quarenta anos, se bem que ele nunca foi munto presente nas décadas anteriores; saber que estava atraente era diferente do que sentir que estava.
 Olhou no relógio, só haviam se passado dois minutos desde que Thomas havia entrado no banco para sacar dinheiro, o estabelecimento financeiro era o único lugar lotado em um raio de quinhentos metros; bairro comercial, isso é esperado. A rua estava deserta, mas não havia muito perigo aparente, Clarice tinha sua Beretta dentro da bolsa junto com seu distintivo caso fosse preciso; esperava que não fosse.