Vamos terminar a garrafa - NPC

- Sabe, mesmo que você realmente seja um idiota, mesmo que eu deveras me machuque. Isso nunca vai ser minha culpa. É um defeito seu se você me machucar, e uma qualidade minha eu pular de cabeça. Nunca pedirei desculpas por correr em direção o pôr do sol.
Com um sorriso sereno, ela fala isso com toda  simplicidade do mundo na mesa do bar, entendia que precisava dar essa certeza para as pessoas, a certeza de que ela compreendia que tudo era efêmero e que estava preparada para um coração partido.
Antes fosse pose tudo isso, lhe facilitaria a vida. Se ela realmente pudesse se culpar, pudesse se fazer de mártir muitas de suas dores seriam justificadas.
Mas não, ela tinha essa consciência de suas escolhas. Sabia diferenciar quando alguém lhe alimentava expectativas e quando ela criava elas mesmas.
Tão atenta de si, mas tão atrapalhada. Oblíqua ao mundo a sua volta, nunca sabia quando estavam gostando dela e por isso nunca sabia quando magoava alguém.
- Não, na realidade você foi bem cuzona. Ela tava bem afim.
E não sabia reagir à essas palavras. Fácil assim seu mundo e sua percepção de si mesma ruíram. Não foi de propósito, ela não sumiu porque queria. Interpretou os sinais como que se não fosse mais bem vinda, e a vida veio e a impossibilitou de se dedicar a outra pessoa. Também sabia que todas essas justificativas não valiam por nada. Era sua culpa se não tinha se comunicado. Era sua culpa não ter tentado mais.
Não tinha motivos aparentes para sofrer, tinha uma perspectiva que a realmente animava em sua frente, possuía  opções, mas nada disso era suficiente para seu vazio existencial constante. Cronicamente fora mimada e com a imaginação alimentada, sonhava em ser verdadeiramente amada, com respeito e carinho mútuos, constantemente se lembrando de como tinham sido incríveis os meses que agora pareciam momentos de quando se sentia assim, mas compreendia já que esse não era seu destino.
Ela era a amiga em que as grandes festas, as grandes realizações de vida não aconteciam com era por perto. Muitas idéias mirabolantes aconteceram em sua frente mas nenhuma que ela tenha participado per se. Apenas estavam monologando em sua presença.
Era o rebound, o fetiche, dificilmente a primeira opção, e por mais que isso doesse, qual era a outra opção que tinha?
Com seus beijos adolescentes úmidos e seu humor facilmente impressionável compreendia o que a tornava atraente, mas também tinha plena ciência do que a tornava insuportável.
- Tudo nesse tempo, nós, a própria existência em si... Somos efêmeros. E Isso é absolutamente ok. As coisas acabam. Não é tudo que requer sofrimento.
Apesar desse discurso, ela sofria. Ah, como sofria, constantemente  se esforçando para ser empática com as dores alheias, tão constantemente inconformada com o mundo e si mesma.
Nada bastava, queria um pôr do sol mais brilhante, um baseado mais forte, um mar mais verde. Exigia tanto de suas vivências que... Se via vivendo nada.
Talvez um dia, ela seria a personagem principal da história de alguém, talvez até de si mesma, um dia se os orixás forem gentis ela se sentirá eterna, mas paciência não era o seu forte.
E até lá? Ela flertava, se machucava, se odiava e daria risada do mundo. Porque mesmo que ela acabe, sempre pode fingir que teve uma participaçãozinha para a ascensão alheia, não?

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