Leblon Holiday

 - Está sentindo isso? Nós nesse momento somos eternos.
 O sol brilhava janela afora, iluminando uma das garotas mais bonitas que eu já tinha visto. Ela sorria enquanto o cabelo loiro refletia todo o brilho que entrava no meu quartinho azul.
 Todo o seu esforço para recriar a cena daquele filme adolescente era verdadeiramente adorável, e não todo em vão. Apenas uma pena que a espontaneidade estava sumindo.
 Pulou para fora da cama e correu para o banho, no meio tempo eu me sentei na minha escrivaninha, abri o notebook e comecei a escrever.
 Uma página e meia depois ela voltou, se sentou na mesa do lado do computador e retomou a leitura de um livro de poesia, deve ter lido o equivalente a uma estrofe antes de apoiar a perna e me interromper.
 - Como és tão produtivo?
 - Apenas sendo.
 - Hmm, eu tento apenas ser e não consigo. - Se sentou de joelhos na mesa, frustrada, exigindo que eu desviasse meu olhar para ela.
 - Tem que se livrar dos seus vícios.
 - Todos eles?
 - Não, não todos. Apenas os ociosos. Séries, videogames, mulheres bonitas...
 - Meus cigarros estão seguros então?
 - Estão seguros.
 E ela começa a perambular pelo apartamento, ou se fazendo de entediada ou realmente procurando algo para fazer. A via fingindo tropeços pelo reflexo do notebook, os cabelos longos que esvoaçavam com a corrente morna de ar, como se ela estivesse desesperada para que eu a tornasse em um personagem, para ser imortalizada nas páginas de algum conto ou um episódio de novela, mas não é assim que a inspiração funciona. Como eu queria que meus personagens pudessem apenas ser dedicatórias as pessoas que eu amo, a vida seria mais simples, mas não, ela não iria querer isso.
 É fácil imaginar: Melina, a garota rica de classe média que se julga tão especial por ser o mínimo de empática. Compra uma luta X de tal período Y, apenas para se desiludir no final; seu namorado, esse sim o verdadeiro revolucionário, seria torturado, talvez largado morto na rua se a história se passasse no Chile, enquanto ela nem se quer ao menos questionada.
Não, ela ficaria profundamente ofendida por não ser a protagonista da história, ainda mais uma coadjuvante morgada como essa seria. 
 Finalmente os cinco minutos de silêncio me fizeram desviar o olhar. Como uma criança aquela era, silêncio era suspeito.
 E ela dormia, ou fingia dormir para me chamar a atenção. Seus cabelos louros trançados jogados de trás dela e se encolhia em uma posição semi-fetal, adorável e sensual o suficiente para que eu me distraísse por uns bons 10 segundos a contemplando. Por isso que não dá mais para sair com garotas mais novas.
É terrível assumir isso, mas, como ela quer ser uma protagonista minha se nem se quer é uma protagonista em minha vida? 
 A manhã se passou, e mais um capítulo foi terminado. Faltava apenas a minha revisora dar sua resposta que o pagamento do mês estava concluído. 
Abro a minha página da Coluna e começo a escrever. Não sobre literatura dessa vez, mas sim sobre política. Com os livros do Faoro e Sérgio Buarque do meu lado, o suor começou a se acumular na minha ruga, aquele bom e velho esforço desgraçado que todo maldito idealista conhece, a tentativa da crítica bem fundamentada apenas para ser chamado de "velho comunista" nos comentários.
 Tentar explicar permanência de elites de poder, descrevendo a porcaria que é o nosso legislativo e tentando traduzir o que sociólogos mais inteligentes do que eu falaram para a academia não era fácil, certamente não era frutífero... 
 - O que tá fazendo agora? Quando stress...
 Nunca tinha tido tanta vontade de expulsa-la da minha casa como agora. Até recuperar o fio da meada ia levar mais vinte minutos de cigarros, café, andar de um lado pro outro e a merda de uma ansiedade.
 - É. Para. Minha. Coluna.
 - Huh. - Despreocupadamente a pirralha começou a ler minha tela enquanto lançava o olhar mais passivo-agressivo possível. Em dois minutos ela tinha terminado e começou a folear um dos livros que estavam por perto. Onde diabos eu a tinha conhecido mesmo? Numa assinatura de livros? Não, foi o Roberto que nos apresentou, mas a primeira vez que a vi foi naquela assinatura. Nem sabia o que ela fazia da vida.
 - Sabe... - Ela diz, interrompendo meu processo de raciocínio. De novo. - Que se você fazer uma análise demográfica do eleitorado do legislativo, você consegue utilizar uma metodologia mais simples, não? Digo, ainda falando dos jogos de poder, só que dessa vez da perspectiva da população, não é esse seu objetivo?
 E pela primeira vez naquele mês eu reparo nela. Nos traços delicados e nos olhos firmes. Aquele tom de castanho profundo e na mordida da falange do meio de seu indicador como quem está pensando em algo. Não a ouço enquanto ela fala sobre classe média, identidade nacional, falta de nacionalismo ou nada disso. Apenas vejo pela primeira vez toda a possibilidade daquela juventude.
 Terminamos o post e em questão de minutos as pessoas estão me mandando voltar para Cuba. E no momento em que ela senta e começa a ler a Dialética do Esclarecimento eu começo a andar por em volta dela. Pego uma câmera fotográfica e prendo aquele olhar tão compenetrado para sempre. 
 Me sento de volta na escrivaninha e começo a digitar.
  "Melina sabia que começar aquela gráfica clandestina podia ser o golpe que a mandasse para a prisão. Mesmo sabendo disso... Não se incomodava." 

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