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Cinquenta centavos de lucro

 Teddy estava em Nova York. A matriz da fábrica era lá. E a bolsa de valores também.
 Ele estava tentando convencer os donos da Malboro a aumentarem o preço do maço para US$ 1,00.
 Conseguiu. 
 Aumentou os seus para US$ 0,65.
 Mas foi muito complicado.  
 Entendam, tem todo um processo para aumentar o lucro. 
 A demanda aumenta, o quê faz que eu tenha que falar com Billy. O administrador da fazenda de produção. Ele contrata mais vinte funcionários. Todos asiáticos. Trabalham mais rápido e melhor. 
 Preferimos japoneses. Eles têm algo a ver com o orgulho de trabalho bom e etc.
 A questão é: eles não eram tão baratos quantos os mexicanos. Mas compensava.
 Billy me mandava os relatórios. Que eu passava para o irmão de Teddy, Berny. Um cara brilhante com números. Mas só isso também.
 Então eu começava a fazer a distribuição dos produtos pelas lojas.
 Entenda o quê cada um faz.
 Billy cuida dos empregados.
 Berny, dos números.
 Teddy do resto da administração.
 E eu? Simples. Fazia o resto.
 A parte romântica e trabalhosa da máfia.
 Suborno.
 Assassinatos.
 Pagamentos.
 Sei que Teddy Gianni confia em mim, com a vida dele. Afinal, sou a única pessoa que toca no dinheiro dele. Mas ele ainda não me perdoou por ter roubado os cigarros dele quando tínhamos 14. Senão já tinha me mandado embora. 

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