your one companion

 Sentada no sofá ela permitiu um suspiro escapar, havia anos já que não se sentia rejeitada desse modo. Não foi um sentimento novo porém quase pareceu como se fosse, afinal ele a pegou de surpresa.
 Deitou no sofá como fazia quando era mais nova, bem mais nova, quando ouvia The Pretenders no rádio e chorava por um antigo namorado. Não havia mais rock inglês e nem lágrimas na cena, mas quão diferente era realmente a cena? Ainda havia um ser humano do sexo oposto no seu pensamento e também se sentia mal por causa dele.
 Se levantou e saiu a andar pelo apartamento espaçoso, deu trinta passos pela sala, acompanhando a parede feita de vidro que era a janela e a porta para a varanda; portas, janelas e divisórias todas feitas de vidro, tudo isso para dar uma maior sensação de amplitude para o ambiente. Mais vinte passos pelo corredor que a porta de madeira branca separa polidamente dos convidados e entrou no quarto.
 O quarto cor de champanhe com detalhes em roxo e marrom, sofisticado, como a personalidade do casal; gostava de pensar que os poucos tons quentes lhe representavam. Continuou caminhando até o closet, onde deixou o robe de seda deslizar pela pele, tentando se lembrar em qual momento de sua vida que trocou moletom e malha por tecidos sofisticados.  
"Finalmente um salário de cinco dígitos. Como comemoraremos?" Thomas riu. "Como mais faríamos?" Clarice abriu a garrafa de vinho. 
 Mas já fazia muito tempo. Dez anos mudam um casal, promoções vem, e a vida passa. 
 Agora vestia renda e esperava pelo marido, o coração doía levemente com o fato de ser ignorada duas noites seguidas em casa, temia pela traição por mais que achasse improvável; não tinha mais idade e nem motivo de se sentir insegura, mas ainda lá estava. Usando todas as suas armas possíveis para desarmá-lo e conseguir uma resposta, vê-lo combater seu argumento, mesmo ela não sabendo qual seria. 
 Começou a cozinhar enquanto terminava a garrafa de vinho do porto que já estava na geladeira; aproveitou a bebida para fazer um tiramisu e ver se a ansiedade passava. Só piorou.
 Se deitou mais uma vez no sofá enquanto a sobremesa gelava, o vinho a havia feito suar e ficar sonolenta, permitiu-se começar a cair no sono, com a esperança de ver o doce fora da geladeira com um pedaço já roubado e com uma manta por cima de seus braços; como os antigos hábitos.
 Haviam passado quatro horas quando acordou com a aurora nos olhos. Braços gelados e sobremesa intacta, assim como a cama perfeitamente arrumada. 

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