gazing across

 O frio era suficiente para o próprio ar lhe arder os pulmões, em uma sensação mista de alívio, limpeza e profundidade dentro de si mesma, o frio da noite lhe percorrendo os capilares; uma metáfora bonita, como pensar que a noite, como algo palpável, estava dentro de si. Ficou feliz pela maquiagem estar escondendo o nariz vermelho ao se olhar no reflexo, sorriu com o resultado, se sentiu bonita no reflexo da vitrine, um sentimento raro após os quarenta anos, se bem que ele nunca foi munto presente nas décadas anteriores; saber que estava atraente era diferente do que sentir que estava.
 Olhou no relógio, só haviam se passado dois minutos desde que Thomas havia entrado no banco para sacar dinheiro, o estabelecimento financeiro era o único lugar lotado em um raio de quinhentos metros; bairro comercial, isso é esperado. A rua estava deserta, mas não havia muito perigo aparente, Clarice tinha sua Beretta dentro da bolsa junto com seu distintivo caso fosse preciso; esperava que não fosse.
- Uuunh... Gaah... Maldita ela!
 Um homem cambaleava e tropeçava na rua, com o som metálico de uma lâmina batendo em um cinto gasto. Ele viu Clarice.
 - Gaah. Ughh
 Tropeçou seguindo uma diagonal em direção à ela; a figura curvilínea permaneceu-se imóvel, somente esperando uma reação; porém a cada passo que ele dava, seu coração apertava mais um pouco.
 Thomas saiu do banco, e o homem desviou seu caminho se afastando do deles. O casal se abraçou, foram para o mercado e compraram uma garrafa de vinho tinto antes de voltarem para o apartamento. Era uma noite fria, então houve uma discussão carinhosa sobre Vinho do Porto ou um Chianti. Clarice insiste pelo Porto no final das contas. Tirando esse episódio, foi uma trajetória quieta até casa.
 Ela tirou o casaco e guardou a arma, enquanto seu namorado abria a garrafa de vinho, o calor de dentro do apartamento logo a aqueceu, corando as bochechas. Se sentou no sofá, inalando fundo o ar quente enquanto Thom se sentava do seu lado, perguntando com o olhar o que havia acontecido.
 - Você se lembra daquele mendigo que passou na nossa frente agora pouco.
 - Vi que você tinha ficado sem reação. O que houve?
 - Fiquei estática. Nervosa. Se aquele homem tivesse se aproximado apenas mais dois passos na minha direção a minha primeira reação seria imobilizar ele e se ele reagisse, sacar a minha arma; porém devido ao suor frio que estava nas minhas costas eu não sei se não atiraria nele como reação imediata.
 - Seria legítima defesa querida, tanto como seu dever policial de manter a ordem e a lei, que o estado daquele homem certamente comprova que ele estava violando-os, tanto quanto proteger a si mesma, se ele se aproximasse com intenções violentas...
 - ... O que ele certamente faria, seria meu direito me proteger. Já conheço sua retórica meu bem. - Ela sorri; seis anos com um promotor, inglês ainda por cima, levam a reconhecer algumas coisas. - Mas a questão não é o ponto legal. Se eu sacasse a minha arma, com certeza o mataria. Tenho precisão o suficiente para tal ação, assim como frieza. Não seria a primeira vez que atiraria para matar.
 A mão se fecha tensa, trêmula e firma na taça. Uma outra mais calma e morna repousa em cima da primeira.
 - Ainda tem problemas com isso meu amor?
 - Não. Nunca atirei uma bala injustificada. E essa se acontecesse também não seria, é só que... Se eu estivesse no expediente, seria minha obrigação reagir àquele homem de alguma forma, seja com uma prisão, advertência, levá-lo para algum centro, ou até mesmo reação física dependendo da atitude dele... A questão é em qualquer outro momento de um encontro meu com aquele homem eu teria que tomar alguma atitude. E vê-lo em uma situação em que eu me encontrava como uma civil, por mais que tenha sido durante um quarto de segundo que eu me encontrei naquela situação até ter me lembrado de minha arma na bolsa, foi um quarto de segundo que senti tanta piedade e tanta dor que até agora estou assustada, um homem perturbado, com o espírito quebrado em todos os aspectos. Um ser tão frágil... Thomas, se ele tivesse andado apenas mais três passos e posto a mão na faca que levava, eu teria matado um homem que me importei, por apenas uma fração de segundo, mas me importei.
 Como acontece com todos os casais, com o tempo todas as manias e as sutis mudanças de comportamento e expressão que antes eram invisíveis se tornam escandalosas. O ranger de dentes de Clarice utilizado como um mecanismo de engolir o choro assustou Thomas.
 - Qual a sua preocupação minha querida? Perder o profissionalismo necessário? A frieza de executar as suas missões sem julgamento? Se for esse o caso você tem uma carreira brilhante, pode pedir para fazer parte de escritório ou ser transferida...
 - Não sei se tenho alguma preocupação agora, só nunca me senti assim antes. Entenda, nunca tive que enfrentar a possibilidade de atirar em você.
 Ambos riem e continuam a diminuir o volume da garrafa de vinho.
 A noite se passa pacífica e adorável, como todas as outras para eles; houve música, comida boa e um musical sobre um gênio perturbado e uma cantora fenomenal que no final o abandona.
 Descansaram a noite, o alarme tocou as seis da manhã e Clarice tomou todo o cuidado para não acordar seu parceiro, não era sempre que ele conseguia dormir; cumpriu sua rotina matinal de higiene e cuidados, vestiu o uniforme e saiu para a rua; ainda arrumava o cinto na porteira do prédio quando viu o mesmo pobre coitado da noite passada dormindo na esquina da rua. 

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